Dra. Bruna Guerra

Médica veterinária | Dermatologia e Alergologia Veterinária

Resumo

As dermatofitoses em cães e gatos são afecções frequentes tratadas com antifúngicos sistêmicos, os quais podem causar efeitos adversos. A farmacovigilância veterinária é essencial para a detecção precoce dessas reações. O monitoramento clínico e laboratorial favorece o uso seguro e racional desses fármacos.

Introdução

As dermatofitoses representam uma das principais afecções dermatológicas de importância em cães e gatos, caracterizando-se como uma zoonose de relevância para a saúde pública. O tratamento dessas enfermidades frequentemente exige o uso de antifúngicos sistêmicos, como itraconazol, cetoconazol, fluconazol e terbinafina. Embora eficazes, tais fármacos apresentam potencial para causar efeitos adversos, especialmente hepáticos e gastrointestinais, ressaltando a importância da farmacovigilância veterinária. Nesse contexto, o presente trabalho tem como objetivo discutir a relevância da farmacovigilância no uso de antifúngicos sistêmicos em cães e gatos acometidos por dermatofitoses, destacando a necessidade de monitoramento clínico e laboratorial.

Objetivos

O objetivo geral é analisar a importância da farmacovigilância no uso de antifúngicos sistêmicos em cães e gatos com dermatofitoses. Como objetivos específicos, pretende-se:

Revisão de Literatura

Os dermatófitos mais comuns em pequenos animais incluem Microsporum canis, Microsporum gypseum e Trichophyton mentagrophytes, sendo responsáveis por quadros de alopecia focal, descamação e prurido. Esses agentes utilizam a queratina como fonte nutricional e infectam principalmente pelos e camadas superficiais da epiderme, com transmissão ocorrendo por contato direto com animais infectados, reservatórios ou artroconídios presentes no ambiente. O ciclo da infecção inicia-se com a adesão dos esporos à haste pilosa, seguida de germinação, invasão do folículo e produção de novos artroconídios, que perpetuam a infecção e a contaminação ambiental.

Microsporum canis

É o dermatófito mais prevalente em pequenos animais, especialmente em felinos, sendo considerado o principal agente de dermatofitose com importância zoonótica. A infecção pode manifestar-se clinicamente por alopecia focal ou multifocal, lesões circulares bem delimitadas, descamação e fragilidade dos pelos, com prurido geralmente ausente ou discreto. Em gatos, é comum a ocorrência de portadores assintomáticos, o que favorece a disseminação silenciosa do agente. A infecção evolui de uma fase inicial subclínica para uma fase aguda com lesões típicas, podendo tornar-se crônica na ausência de tratamento. Essa espécie é classicamente associada à fluorescência verde-maçã observada à lâmpada de Wood, fenômeno relacionado à produção de metabólitos fluorescentes aderidos à haste pilosa, embora nem todas as cepas apresentem essa característica. Seus artroconídios possuem elevada resistência ambiental, podendo permanecer viáveis por até dois anos.

Microsporum gypseum

É um dermatófito geofílico, encontrado no solo rico em matéria orgânica, sendo a infecção geralmente decorrente do contato direto do animal com o ambiente contaminado. Apresenta potencial zoonótico menor quando comparado a M. canis e não fluoresce à lâmpada de Wood, uma vez que não produz metabólitos fluorescentes. Clinicamente, tende a causar lesões mais inflamatórias, com alopecia irregular, eritema acentuado, crostas e prurido mais evidente, frequentemente localizadas em áreas de maior contato com o solo. A evolução costuma iniciar-se com uma fase aguda inflamatória marcada, podendo ser autolimitante em alguns casos, conforme a resposta imune do hospedeiro. Seus esporos apresentam elevada resistência no ambiente, permanecendo viáveis no solo por longos períodos.

Trichophyton mentagrophytes

É um dermatófito zoofílico, frequentemente associado a roedores como reservatórios naturais, apresentando elevado potencial zoonótico. A infecção em cães e gatos caracteriza-se por lesões intensamente inflamatórias, com alopecia focal ou multifocal, crostas espessas, eritema pronunciado e, em alguns casos, formação de querion dermatofítico. O prurido é variável e tende a ser mais significativo em comparação a outras espécies. Assim como M. gypseum, não apresenta fluorescência à lâmpada de Wood. A infecção evolui rapidamente para a fase aguda inflamatória, geralmente respondendo bem ao tratamento antifúngico e à resposta imune do animal. Os artroconídios podem persistir no ambiente por aproximadamente um ano ou mais, contribuindo para a reinfecção.